Tecnologia desenvolvida em Ilhéus usa inteligência artificial para analisar fotos, áudios e textos enviados pelo produtor e oferecer diagnósticos preliminares sobre doenças, pragas e deficiências nutricionais
ILHÉUS — A tecnologia desenvolvida dentro do ecossistema científico de Ilhéus acaba de ganhar uma nova aplicação no campo. Pesquisadores da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) lançaram o App do Cacau, uma ferramenta gratuita de assistência à cacauicultura que utiliza inteligência artificial para auxiliar produtores na identificação de problemas encontrados nas lavouras.
A iniciativa foi apresentada durante a ExpoCacau 2026, realizada em Ilhéus, e chega em um momento estratégico para uma das principais cadeias produtivas do Sul da Bahia. O projeto foi concebido justamente para enfrentar um dos gargalos históricos da produção rural: o tempo necessário para que o agricultor consiga acesso a orientação técnica especializada.
Diferentemente de aplicativos convencionais, o produtor não precisa instalar um novo programa. O atendimento é realizado pelo WhatsApp. É possível enviar fotografias, áudios ou mensagens de texto descrevendo o problema encontrado na plantação. A inteligência artificial então cruza essas informações com uma base de conhecimento agronômico e apresenta um diagnóstico preliminar, acompanhado de orientações de manejo.
Tecnologia desenvolvida em Ilhéus olha para um problema antigo
Na prática, a proposta é reduzir o intervalo entre a identificação de um problema e a obtenção de uma primeira orientação.
Uma doença ou praga identificada tardiamente pode representar perdas importantes para o agricultor. Em propriedades mais afastadas dos centros urbanos, a dificuldade de acesso à assistência técnica pode aumentar ainda mais esse intervalo.
A coordenadora do projeto, Deborah Faria, professora do Departamento de Ciências Biológicas da UESC, explica que a primeira fase da ferramenta foi concentrada justamente na identificação de pragas, doenças e algumas deficiências de micronutrientes. A intenção é ampliar posteriormente as funcionalidades do sistema.
Entre os problemas que podem ser analisados está a ocorrência de doenças que ameaçam a produção cacaueira, como a vassoura-de-bruxa, além de outras enfermidades e pragas.
Como funciona
O sistema foi desenvolvido para interpretar diferentes tipos de informação. O produtor pode, por exemplo, fotografar uma folha ou fruto com alterações, gravar um áudio explicando o que observou ou simplesmente digitar sua dúvida.
A tecnologia utiliza visão computacional, processamento de linguagem e análise por voz, além de recursos de inteligência geográfica para considerar características da região. Segundo os responsáveis pelo projeto, a primeira versão contempla oito doenças e 11 pragas, além de deficiências de micronutrientes.
O projeto também prevê uma segunda etapa, com ampliação do número de problemas reconhecidos e incorporação de funcionalidades relacionadas ao manejo, como adubação e poda. Para isso, está prevista a utilização de um modelo de visão computacional desenvolvido pela Universidade de Wageningen, na Holanda.
Projeto reúne pesquisadores brasileiros e estrangeiros
Apesar de ter a UESC como uma das principais instituições responsáveis pela iniciativa, o projeto possui caráter multidisciplinar e internacional.
A equipe reúne pesquisadores da própria UESC, especialistas ligados à Ceplac, ADAB, Centro de Inovação do Cacau e CIAPRA, além de colaboradores da Universidade de Wageningen, na Holanda, e da Universidad Nacional de San Martín, no Peru. O desenvolvimento do modelo de inteligência artificial envolve pesquisadores das áreas de computação, agronomia, microbiologia, solos e nutrição de plantas.
O financiamento inicial foi realizado pelo Instituto Arapyaú, enquanto a administração do projeto está vinculada ao Parque Científico e Tecnológico do Sul da Bahia (PCTSul), com coordenação técnica da UESC.
Cuidado: inteligência artificial não substitui o agrônomo
Apesar do potencial da ferramenta, há uma ressalva importante: o App do Cacau não substitui a avaliação presencial de um especialista.
Os próprios responsáveis pelo projeto classificam as respostas como diagnósticos preliminares. Portanto, uma suspeita apresentada pela inteligência artificial deve servir como orientação inicial e não como confirmação definitiva de uma doença ou recomendação automática para aplicação de produtos na lavoura.
Esse ponto é especialmente importante porque erros na identificação de doenças ou no manejo podem provocar prejuízos econômicos e ambientais.
Ilhéus reforça vocação como polo de inovação do cacau
O lançamento do App do Cacau também se conecta a uma estratégia mais ampla de modernização da cadeia produtiva regional.
Em abril deste ano, o Ministério da Agricultura e Pecuária anunciou, em Ilhéus, um projeto da Ceplac voltado à recuperação da Mata Atlântica e ao fortalecimento da produção de cacau no Sul da Bahia. A iniciativa prevê, entre outras ações, rastreabilidade por blockchain, capacitação de produtores e a criação de um Centro de Inteligência Territorial.
Na mesma direção, o Governo da Bahia já apontou a economia do cacau, a tecnologia e os serviços como setores estratégicos para o desenvolvimento do ecossistema de inovação de Ilhéus.
Assim, o novo aplicativo representa mais do que uma ferramenta tecnológica isolada: ele mostra como pesquisa científica, inteligência artificial e conhecimento tradicional da cacauicultura podem começar a trabalhar juntos dentro da própria região produtora.
Para o produtor interessado em experimentar a tecnologia, o App do Cacau está disponível gratuitamente pelo WhatsApp, sem necessidade de instalar outro aplicativo.
Fontes: App do Cacau/Projeto multi-institucional; Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC); Ministério da Agricultura e Pecuária; Governo da Bahia; informações divulgadas durante a ExpoCacau 2026.
