Crítica publicada pelo Bahiana Notícias expõe situação de praça central e reacende debate sobre abandono, patrimônio histórico, população em situação de rua, fiação aérea e falta de uma política permanente de conservação urbana
Ilhéus é uma cidade que vive, em grande parte, daquilo que apresenta aos olhos de quem chega.
O patrimônio histórico, as praças, as igrejas, os casarões, as ruas do centro, a orla e os espaços públicos compõem o cartão-postal de um município que recebe visitantes de diferentes partes do Brasil e também do exterior.
Por isso, quando esses espaços apresentam sinais de abandono, desorganização ou falta de manutenção, o problema deixa de ser apenas administrativo. Passa a atingir a própria imagem da cidade.
A discussão ganhou novo capítulo nesta terça-feira (25), após o Bahiana Notícias publicar reportagem intitulada “Ilhéus precisa de menos propaganda e mais atuação efetiva por parte da Prefeitura nos espaços públicos”. A publicação mostra imagens encaminhadas por um morador e relata a presença de pessoas em situação de rua utilizando uma praça central como local para dormir, além de questionamentos sobre a organização de uma feira realizada no espaço.
A reportagem não apresenta a situação como uma constatação oficial de abandono, mas como uma denúncia de moradores que cobram providências da Prefeitura. Essa diferença é importante.
Ainda assim, o problema levantado merece ser discutido.
O centro histórico não pode ser tratado como qualquer lugar
Ilhéus possui um patrimônio histórico que integra a identidade cultural e turística do município.
Casarões, igrejas, praças e ruas do centro histórico não são apenas imóveis ou equipamentos urbanos. Eles contam parte da história da cidade e ajudam a sustentar uma cadeia econômica ligada ao turismo, à gastronomia, ao comércio e à cultura.
Quando esses espaços sofrem com falta de conservação, sujeira, iluminação deficiente, ocupação desordenada ou degradação do mobiliário urbano, a cidade perde patrimônio e também perde valor turístico.
Não basta restaurar um prédio histórico e esperar que ele permaneça preservado.
Patrimônio exige manutenção permanente.
Essa discussão não é nova em Ilhéus. O Movimento Preserva Ilhéus, por exemplo, já denunciou anteriormente a deterioração de imóveis históricos e chegou a levar questionamentos aos Ministérios Públicos Estadual e Federal.
O desafio, portanto, é transformar a preservação do patrimônio em política pública contínua, e não em ação pontual quando um problema já se tornou visível.
A cidade turística também precisa cuidar da paisagem urbana
Existe ainda um problema que talvez seja um dos mais evidentes para quem circula pelo centro: o emaranhado de fios nos postes.
Cabos de energia, telefonia e internet cruzam fachadas, ruas e equipamentos históricos, criando uma verdadeira teia visual que interfere diretamente na paisagem urbana.
Não se trata apenas de estética.
A ocupação desordenada dos postes também pode gerar riscos operacionais e dificultar a manutenção das redes.
A própria Neoenergia Coelba já realizou força-tarefa em Ilhéus para retirada de cabos de provedores que atuavam irregularmente, com a justificativa de diminuir a poluição visual na cidade.
A distribuidora também esclarece que as empresas de telefonia e internet que utilizam os postes precisam manter suas redes dentro das regras de compartilhamento e são responsáveis pela instalação e manutenção dos cabos.
Isso abre espaço para uma iniciativa que Ilhéus poderia transformar em projeto permanente de requalificação visual do centro histórico.
Prefeitura + Neoenergia + empresas de internet
A Prefeitura poderia convocar a Neoenergia Coelba e os principais provedores de internet que operam no município para construir um plano específico para o centro histórico.
O objetivo seria mapear poste por poste, identificar cabos ativos e abandonados, retirar redes irregulares, organizar a ocupação dos postes e estabelecer um cronograma permanente de fiscalização.
A ideia não seria transferir para a Prefeitura uma responsabilidade que pertence às empresas.
Seria justamente o contrário:
unir quem fiscaliza, quem fornece a infraestrutura e quem utiliza os postes para resolver um problema que afeta toda a cidade.
O município poderia estabelecer como prioridade inicial o eixo turístico e histórico, incluindo áreas de maior circulação de visitantes.
Uma cidade que pretende vender sua história, sua cultura e sua arquitetura para turistas não pode aceitar que uma floresta de cabos atravesse visualmente seus monumentos históricos.
A presença de pessoas em situação de rua exige política pública, não simplesmente retirada
Outro ponto levantado pelo Bahiana Notícias é a presença de pessoas em situação de rua em espaços públicos.
Aqui também é preciso evitar uma simplificação.
Pessoa em situação de rua não é sinônimo de problema de limpeza urbana.
São pessoas que precisam de assistência social, atendimento de saúde quando necessário, documentação, alimentação, acolhimento e, quando possível, caminhos para reconstrução da autonomia.
Mas reconhecer essa dimensão humana não significa aceitar que praças turísticas sejam abandonadas à própria sorte.
O município precisa conciliar direito à cidade, dignidade humana, segurança, organização urbana e preservação dos espaços públicos.
Isso significa ampliar a abordagem social e, simultaneamente, garantir que praças e áreas de convivência tenham regras, manutenção, iluminação, fiscalização e utilização adequada.
A solução não é simplesmente retirar pessoas de uma praça e transferi-las para outra.
É enfrentar a situação de rua como política social e, ao mesmo tempo, recuperar o espaço público para toda a população.
O problema também envolve pedintes e desorganização
Além das pessoas em situação de rua, moradores e comerciantes frequentemente apontam a presença de pedintes em áreas de grande circulação.
Novamente, a questão precisa ser tratada com equilíbrio.
Pedir dinheiro não transforma automaticamente alguém em ameaça ou criminoso. Mas a concentração de abordagens insistentes em pontos turísticos pode gerar desconforto para moradores e visitantes e merece ser acompanhada pelo poder público.
Ilhéus precisa de uma estratégia que envolva assistência social, abordagem especializada, saúde, segurança pública, ordenamento urbano e turismo.
Uma equipe simplesmente expulsando pessoas das praças não resolve.
Da mesma forma, ignorar o problema também não resolve.
“Adote uma Praça”: uma experiência de Ilhéus que merece ser retomada
E aqui está talvez uma das melhores oportunidades para Ilhéus.
Durante a gestão do ex-prefeito Jabes Ribeiro, o município implantou o programa “Adote uma Praça”, aproximando a Prefeitura da iniciativa privada para recuperar espaços públicos.
Um dos exemplos foi a Praça São João Batista, no Pontal, adotada pelo Grupo Cidadelle. O projeto previa a recuperação completa do espaço e contou com projeto arquitetônico específico.
Outro exemplo foi a Praça Antônio Vianna Dias da Silva, na Cidade Nova, cuja reurbanização foi executada pela Cicon dentro do programa.
O modelo não ficou restrito àquela gestão.
Mais recentemente, a Praça Pedro Matos foi revitalizada por meio de acordo de cooperação entre o Município e a Unimed Ilhéus, também dentro do conceito do “Adote uma Praça”. A parceria previu paisagismo, iluminação de LED, acessibilidade e manutenção do espaço pela cooperativa por dez anos.
Ou seja: a ideia já demonstrou que pode funcionar em Ilhéus.
Por que não ampliar o programa?
Em vez de a Prefeitura assumir sozinha a recuperação de todas as praças, poderia criar um novo ciclo do Adote uma Praça, com regras mais modernas, transparência e metas claras.
Empresas poderiam apresentar projetos de requalificação para espaços previamente definidos pelo município.
A empresa adotante poderia ficar responsável por:
- recuperação paisagística;
- iluminação decorativa e funcional, dentro das normas;
- mobiliário urbano;
- acessibilidade;
- jardinagem;
- manutenção;
- limpeza complementar;
- instalação e conservação de equipamentos autorizados;
- manutenção periódica durante o período estabelecido no acordo.
Em contrapartida, poderia haver identificação institucional da empresa no espaço, dentro dos limites definidos pela legislação e pelo contrato.
Mas há uma ressalva importante: não encontrei documentação suficientemente segura para afirmar que o programa de Ilhéus concedia redução de impostos às empresas adotantes.
Por isso, essa vantagem não deve ser apresentada como fato histórico sem que seja localizado o dispositivo legal ou contrato específico que a tenha estabelecido.
Se a Prefeitura quiser tornar o programa mais atrativo hoje, porém, pode estudar incentivos juridicamente possíveis, desde que previstos em lei e submetidos às regras fiscais e de transparência.
A proposta poderia ir além das praças
O mesmo conceito poderia ser aplicado a outros espaços.
Adote um monumento.
Adote um jardim.
Adote um canteiro.
Adote um espaço cultural.
Adote um trecho do centro histórico.
A iniciativa privada não substituiria o poder público.
Ela entraria como parceira.
O patrimônio continuaria sendo público e a Prefeitura continuaria responsável por fiscalizar, regulamentar e garantir que o espaço atendesse ao interesse coletivo.
É exatamente aí que está a diferença entre privatizar um espaço público e estabelecer uma parceria de conservação de um bem público.
Ilhéus precisa de um plano integrado
O debate provocado pela reportagem do Bahiana Notícias poderia ser transformado em algo muito maior.
Em vez de simplesmente responder às críticas, a Prefeitura poderia apresentar um Plano Municipal de Recuperação e Valorização dos Espaços Públicos, com metas, prazos, responsáveis e indicadores.
Esse plano poderia reunir pelo menos seis frentes:
1. Patrimônio histórico
Inventário, recuperação, fiscalização e manutenção de prédios e espaços históricos.
2. Praças e jardins
Retomada e ampliação do “Adote uma Praça”.
3. Fiação urbana
Parceria operacional entre Prefeitura, Neoenergia Coelba e empresas de telecomunicações para organização e retirada de cabos irregulares.
4. População em situação de rua
Ampliação da abordagem social, acolhimento e integração entre assistência social e saúde.
5. Ordenamento urbano
Organização de feiras, comércio informal e utilização das praças.
6. Turismo e paisagem urbana
Definição de áreas prioritárias para conservação, especialmente no centro histórico e nos principais corredores turísticos.
Menos postagem, mais indicador
A crítica do Bahiana Notícias toca em uma questão que merece ser levada a sério: a comunicação de governo não pode ser confundida com a própria gestão.
A Prefeitura tem todo o direito — e até o dever — de divulgar suas ações. O problema aparece quando a quantidade de publicações passa a ser utilizada como substituto da demonstração objetiva dos resultados.
A população deveria conseguir consultar:
quantas praças foram recuperadas;
quanto foi investido;
quantas estão atualmente em manutenção;
quais empresas participam do Adote uma Praça;
quanto tempo dura cada parceria;
quais cabos foram retirados;
quantos pontos do centro histórico foram reorganizados;
quantas pessoas em situação de rua foram abordadas e encaminhadas pela rede de assistência;
quais prédios históricos estão em situação de risco.
Isso é gestão baseada em resultado.
Ilhéus tem patrimônio. Falta transformar conservação em prioridade permanente
A Prefeitura de Ilhéus informa atualmente ações de limpeza urbana e assistência social, entre outras iniciativas. O próprio portal oficial registra, por exemplo, mais de 21 mil atendimentos da assistência social e ações recentes do Cata-Treco.
Portanto, seria injusto afirmar que o município esteja simplesmente parado.
A questão é outra e mais exigente:
essas ações estão chegando na velocidade, na frequência e na qualidade necessárias?
Essa é uma pergunta legítima que o governo precisa responder com números e resultados.
Ilhéus não precisa escolher entre propaganda e trabalho.
Precisa de trabalho que dispense maquiagem e propaganda que seja capaz de mostrar resultados comprováveis.
Uma cidade com o patrimônio histórico, a vocação turística e a beleza natural de Ilhéus não pode tratar suas praças, seus monumentos e seu centro histórico como detalhes secundários.
E talvez a solução esteja menos em criar novas estruturas e mais em recuperar boas ideias que já funcionaram, aperfeiçoá-las e cobrar resultados permanentes.
O “Adote uma Praça” é uma delas.
A parceria com a Neoenergia e os provedores para enfrentar a poluição visual da fiação pode ser outra.
E a recuperação do patrimônio histórico precisa deixar de ser apenas uma pauta quando um casarão ameaça ruir.
Ilhéus precisa cuidar daquilo que o turista fotografa — mas, principalmente, daquilo que o cidadão utiliza todos os dias.
Porque patrimônio abandonado não é apenas uma fotografia ruim.
É dinheiro público perdido, memória destruída e oportunidade turística desperdiçada.
Portal Vilela 24hs — Informação, fiscalização e compromisso com Ilhéus.
Fonte da denúncia que motivou esta reportagem: Bahiana Notícias, matéria publicada em 25 de agosto de 2026, relatando reclamações de moradores sobre uma praça central, presença de pessoas em situação de rua e desorganização de uma feira.
Fontes complementares: Prefeitura Municipal de Ilhéus; Neoenergia Coelba; registros históricos sobre o programa “Adote uma Praça” e suas parcerias em Ilhéus.
