Deputado, que declarou patrimônio de R$ 34,3 milhões, recebeu da noiva Isadora Alencar sua primeira doação de campanha; relação une duas famílias de forte influência política e econômica no estado
OLHAR PÚBLICO | Thiago Viana Borges
O deputado federal Neto Carletto (Avante), candidato à reeleição em 2026, voltou ao centro das atenções do debate político baiano após registrar sua primeira doação de campanha para as eleições deste ano. O valor, de R$ 10,5 mil, foi destinado pelo próprio núcleo familiar que também ganhou projeção política nos últimos meses: a doadora é Isadora Felix de Alencar, filha do senador Otto Alencar, presidente do PSD na Bahia. A informação foi divulgada por A TARDE e consta do ambiente de prestação de contas eleitoral, sistema pelo qual o Tribunal Superior Eleitoral disponibiliza ao público as arrecadações e despesas de candidatos.
O episódio poderia ser apenas mais uma movimentação financeira de campanha se não estivesse inserido em um contexto político e patrimonial que vem despertando atenção nas redes sociais e em blogs baianos. Neto Carletto declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de R$ 34.333.615,58 para as eleições de 2026, valor que o coloca, segundo o levantamento publicado por A TARDE, como o deputado federal baiano candidato à reeleição com maior patrimônio declarado. Em 2022, quando disputou sua primeira eleição para a Câmara dos Deputados, ele havia declarado R$ 591.665,02. A diferença entre as duas declarações corresponde a uma elevação nominal superior a 5.600%, sendo que a maior parcela do patrimônio atualmente declarado, de R$ 17.377.098, está registrada como participação societária em empresa de participações.
O próprio deputado atribuiu anteriormente a evolução patrimonial a doações recebidas dos pais. Essa explicação é relevante porque os valores constantes da declaração eleitoral são informações prestadas pelo próprio candidato à Justiça Eleitoral e não equivalem, por si só, a uma conclusão de irregularidade. O TSE disponibiliza as declarações justamente para permitir que imprensa, partidos, instituições e cidadãos acompanhem a evolução patrimonial e as informações financeiras dos concorrentes.
A nova doação de R$ 10,5 mil ganha, entretanto, uma dimensão política adicional pela identidade da doadora. Isadora Alencar é filha de Otto Alencar, senador e presidente estadual do PSD, enquanto Neto Carletto é sobrinho de Ronaldo Carletto, presidente do Avante na Bahia e figura de longa trajetória política e empresarial no estado. O relacionamento entre Neto e Isadora tornou-se público em novembro de 2025 e o casal ficou noivo em abril de 2026, em Salvador, aproximando publicamente duas famílias que já possuíam peso próprio na política baiana.

A aproximação entre os dois grupos familiares chama atenção justamente porque os Carletto não construíram sua influência exclusivamente na política. A família possui trajetória empresarial consolidada no setor de transporte de passageiros. O Grupo Brasileiro reúne empresas como Rota Transportes, Expresso Brasileiro, Cidade Sol e outras operações de transporte urbano e rodoviário, além de atividades relacionadas à administração de terminais rodoviários. Informações divulgadas pelo próprio setor empresarial apontam ainda atuação em fretamento, turismo e transporte de encomendas.
A presença do grupo no transporte baiano é antiga e alcança diferentes regiões do estado. Em 2024, por exemplo, o Grupo Brasileiro apresentou uma nova frota de veículos das empresas Rota Transportes e Viação Cidade Sol para atender linhas de Vitória da Conquista e municípios de sua região. A trajetória empresarial da família começou décadas atrás e se expandiu progressivamente no transporte urbano e intermunicipal de passageiros.
É justamente nessa interseção entre negócios regulados pelo poder público e atividade política que surge uma das questões mais sensíveis do caso. Empresas ligadas à família Carletto atuam em um setor cuja operação depende de autorizações, contratos, licitações e regulação estatal. A AGERBA é a agência responsável pela regulação de serviços públicos delegados, incluindo atividades relacionadas ao transporte intermunicipal na Bahia. Existem registros públicos de empresas vinculadas ao grupo participando de processos regulados pela agência, inclusive de licitações. Em 2022, por exemplo, a Viação Jequié Cidade Sol, ligada à família, venceu processo para operação e manutenção de ônibus elétricos, posteriormente questionado no Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
Também há histórico de controvérsias envolvendo empresas e integrantes da família no contexto da regulação do transporte baiano. A chamada Operação Expresso, deflagrada em 2009, investigou suspeitas de irregularidades relacionadas à concessão de linhas intermunicipais e alcançou empresários e agentes públicos ligados ao setor. Paulo Carletto, integrante da família, esteve entre os presos temporariamente naquela investigação. Reportagens posteriores registraram que a investigação foi encerrada sem desdobramento penal contra ele, segundo seu advogado. Portanto, o episódio histórico não pode ser apresentado como condenação ou prova de prática criminosa.

A relação entre a família Carletto e governos também já foi objeto de cobertura política. Reportagens recentes apontam a proximidade de Ronaldo Carletto com integrantes da base política que sustenta diferentes governos na Bahia, inclusive com Rui Costa, hoje ministro da Casa Civil, e registram articulações envolvendo o Avante e espaços na estrutura estadual. Uma publicação de 2026 chegou a noticiar que uma indicação para a AGERBA poderia partir de Ronaldo Carletto. Trata-se, contudo, de informação jornalística sobre articulação política e não de comprovação de que a família tenha controle da agência ou de que todas as nomeações do órgão sejam determinadas por ela.
É exatamente aqui que a discussão sobre Neto Carletto deixa de ser apenas uma notícia sobre uma doação eleitoral. O caso coloca em evidência um fenômeno conhecido da política brasileira: a sobreposição entre famílias empresariais, patrimônio privado, representação parlamentar, alianças partidárias e relações familiares entre grupos politicamente influentes. Nenhum desses elementos, isoladamente, caracteriza ilegalidade. A questão relevante para o interesse público está em saber como essas relações se comportam quando interesses empresariais dependem de decisões, regulações ou contratos do próprio Estado.
No caso específico da doação de Isadora Alencar, não há, nas informações públicas consultadas, qualquer indicação de que o aporte de R$ 10,5 mil seja irregular. Doações eleitorais feitas por pessoas físicas são admitidas dentro das regras estabelecidas pela legislação eleitoral, e os valores precisam ser declarados à Justiça Eleitoral. O TSE mantém mecanismos públicos de acompanhamento das receitas e despesas de campanha justamente para garantir transparência ao processo eleitoral.
O aspecto político da operação está na simbologia. De um lado está um deputado que chega à eleição de 2026 com o maior patrimônio declarado entre os deputados federais baianos candidatos à reeleição, segundo o levantamento de A TARDE; de outro, uma doação realizada pela filha de um dos políticos mais conhecidos e influentes da Bahia. No meio está a união matrimonial de duas famílias que já possuem trajetórias distintas, mas convergentes, na política e nos negócios do estado.
A situação ganha ainda mais relevância porque Neto Carletto não é um parlamentar que disputa uma eleição isoladamente. Ele é herdeiro político de Ronaldo Carletto, presidente estadual do Avante, enquanto sua futura esposa pertence à família Alencar. O próprio A TARDE destacou que o noivado chamou atenção justamente por unir duas famílias influentes na política baiana.
Há, portanto, uma diferença importante entre registrar os fatos e transformar conexões políticas em acusações. A evolução patrimonial declarada por Neto Carletto merece ser acompanhada, assim como a origem dos recursos, as empresas das quais participa e suas movimentações eleitorais. Da mesma maneira, a atuação de empresas ligadas à sua família em setores regulados pelo Estado deve permanecer submetida aos mecanismos normais de fiscalização, transparência e controle. Mas qualquer conclusão sobre ilegalidade, favorecimento ou conflito de interesses exige documentos, decisões dos órgãos de controle ou evidências concretas, e não apenas a proximidade entre sobrenomes.
O que os dados disponíveis permitem afirmar neste momento é mais simples — e talvez mais significativo: a eleição de 2026 coloca Neto Carletto em uma posição singular na política baiana, combinando um patrimônio declarado de R$ 34,3 milhões, uma poderosa estrutura familiar empresarial, a liderança partidária de seu tio e uma relação matrimonial com a filha de Otto Alencar. A primeira doação de sua campanha veio justamente dessa nova ligação familiar.
Para o eleitor, o episódio oferece mais um elemento a ser observado em uma eleição na qual patrimônio, financiamento privado, relações familiares e alianças políticas estarão inevitavelmente entre os assuntos de maior interesse público. A transparência dos dados eleitorais permite acompanhar essas movimentações sem que seja necessário transformar suspeitas em certezas ou relações pessoais em acusações.
OLHAR PÚBLICO
Onde a informação encontra a reflexão.
Thiago Viana Borges
Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político
