Em apenas 24 horas, o Brasil perde duas gigantes da dramaturgia. Glória Menezes deixa uma trajetória de mais de seis décadas no teatro, no cinema e na televisão e se despede como uma das maiores atrizes da história do país
O Brasil amanheceu de luto pela despedida de Laura Cardoso e, antes mesmo que o país pudesse assimilar a perda de uma das maiores damas da dramaturgia nacional, recebeu nesta terça-feira (18) outra notícia devastadora: morreu Glória Menezes, aos 91 anos.
A atriz morreu em sua casa, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada por sua assessoria e divulgada nesta terça-feira. A família não havia informado, até o momento, a causa da morte.
A sequência das duas perdas transforma estes dias em um dos momentos mais dolorosos para a memória da televisão brasileira. Laura Cardoso, aos 98 anos, morreu na noite de segunda-feira (17), em São Paulo, após passar mal em casa. Sua morte foi confirmada pela família e pelo perfil oficial da atriz.
Duas mulheres de gerações próximas, duas trajetórias extraordinárias e duas artistas que atravessaram décadas de transformações culturais no Brasil.
Em menos de 24 horas, a dramaturgia brasileira perdeu duas de suas maiores referências.
Uma carreira que se confunde com a história da televisão
Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1934, Nilcedes Soares de Magalhães, artisticamente conhecida como Glória Menezes, construiu uma carreira de mais de seis décadas.
Sua trajetória começou no teatro e ganhou projeção na televisão brasileira ainda nos primeiros anos da teledramaturgia. A atriz passou pela TV Tupi e pela TV Excelsior antes de se consolidar como uma das grandes estrelas da televisão brasileira.
Glória também fez história no cinema. Um de seus trabalhos mais emblemáticos foi “O Pagador de Promessas”, filme dirigido por Anselmo Duarte que conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962.
Mas foi na televisão que seu rosto se tornou parte da memória afetiva de milhões de brasileiros.
Ao longo de sua carreira, Glória Menezes esteve em novelas que marcaram diferentes gerações, entre elas “Irmãos Coragem”, “Guerra dos Sexos”, “Brega & Chique”, “Rainha da Sucata”, “A Próxima Vítima”, “Torre de Babel”, “O Beijo do Vampiro”, “Senhora do Destino”, “A Favorita” e “Totalmente Demais”.
Sua última novela foi “Totalmente Demais”, exibida pela Globo em 2015.
Glória e Tarcísio: uma das maiores histórias de amor da televisão

A trajetória de Glória Menezes também ficou profundamente ligada à de Tarcísio Meira, com quem foi casada durante 59 anos, até a morte do ator, em 2021.
Os dois formaram um dos casais mais emblemáticos da televisão brasileira. Juntos, protagonizaram histórias que se tornaram parte da formação da teledramaturgia nacional.
A parceria começou ainda na TV Excelsior, em “2-5499 Ocupado”, considerada a primeira novela diária da televisão brasileira. Depois vieram trabalhos como “A Deusa Vencida”, “Sangue e Areia”, “Rosa Rebelde”, “Irmãos Coragem”, “O Semideus” e “Cavalo de Aço”.
A imagem dos dois, entretanto, ultrapassou a televisão.
Glória e Tarcísio representaram uma época em que os grandes atores de novelas se tornavam verdadeiras referências nacionais, acompanhados diariamente por milhões de brasileiros.
Quando Tarcísio morreu, em 2021, o Brasil perdeu outro gigante.
Agora, cinco anos depois, Glória se despede.
Uma atriz que não se limitava ao glamour
Glória Menezes nunca construiu sua carreira apenas sobre a imagem de estrela.
Foi uma atriz de formação teatral, capaz de transitar entre drama, comédia, cinema e televisão.
Em “Rainha da Sucata”, por exemplo, interpretou Laurinha Figueiroa, uma das personagens mais lembradas de sua carreira. Em outras produções, mostrou uma capacidade de transformação que ajudou a consolidar sua reputação entre os grandes nomes da interpretação brasileira.
Sua carreira também foi marcada por reconhecimento crítico e premiações.
Mas talvez o maior prêmio tenha sido outro: a permanência na memória de várias gerações.
Há atores que fazem sucesso.
Há atores que fazem história.
E existem aqueles poucos que ajudam a construir a própria linguagem de uma época.
Glória Menezes pertence a essa última categoria.
Uma despedida que acontece ao lado de outra gigante

A morte de Glória chega em um momento especialmente simbólico e triste para a cultura brasileira.
Na noite anterior, o país havia perdido Laura Cardoso, outra atriz cuja trajetória atravessou praticamente toda a história da televisão nacional.
Laura morreu aos 98 anos, depois de mais de oito décadas dedicadas à arte. Começou no rádio, estreou na televisão em 1952, na TV Tupi, e posteriormente participou de dezenas de novelas, séries, filmes e peças de teatro.
Seu legado inclui personagens inesquecíveis em produções como “Mulheres de Areia”, “A Viagem”, “Gabriela” e tantas outras.
Laura e Glória pertenciam a uma geração que ajudou a transformar a televisão em um dos principais fenômenos culturais do Brasil.
Uma geração que enfrentou os primeiros anos da televisão ao vivo, a expansão das telenovelas, a consolidação das grandes emissoras, a chegada da televisão em cores e as profundas transformações da indústria audiovisual.
Elas não apenas trabalharam na televisão brasileira. Elas ajudaram a construí-la.
O Brasil perde duas memórias vivas
A tristeza provocada pelas duas mortes não está apenas na ausência de duas artistas.
Está também na sensação de que uma parte da história cultural brasileira está desaparecendo.
Laura Cardoso tinha 98 anos.
Glória Menezes, 91.
Ambas tiveram carreiras superiores a seis décadas.
Ambas trabalharam com alguns dos maiores autores, diretores e atores brasileiros.
Ambas atravessaram mudanças profundas na televisão.
E ambas deixaram personagens que continuam sendo revisitados, reprisados e lembrados por públicos que sequer haviam nascido quando suas primeiras novelas foram exibidas.
É esse o verdadeiro tamanho de um legado artístico.
Glória Menezes permanece
Glória Menezes parte, mas sua obra permanece.
Permanece nas novelas que continuam sendo reprisadas.
Nos personagens que permanecem na memória popular.
Nos filmes.
No teatro.
Nos registros históricos da televisão.
E, principalmente, na lembrança de milhões de brasileiros que cresceram acompanhando seu trabalho.
Sua morte encerra uma trajetória extraordinária, mas não apaga sua presença na cultura brasileira.
Hoje, o Brasil se despede de Glória Menezes.
Ontem, despediu-se de Laura Cardoso.
Duas damas. Duas histórias. Duas trajetórias gigantescas. Uma perda imensa para a dramaturgia brasileira.
Que o tempo seja generoso com a memória das duas.
E que as novas gerações conheçam, além dos nomes, a dimensão do que elas fizeram pela arte brasileira.
Glória Menezes, 91 anos.
Laura Cardoso, 98 anos.
O Brasil perde duas gigantes.
A televisão perde duas de suas maiores estrelas.
E a cultura brasileira ganha, para sempre, dois nomes eternos.
