Uma cidade que precisa decidir se quer apenas preservar sua história ou construir seu futuro.
Há cidades que impressionam pela força de sua economia. Outras pela beleza de sua paisagem. Itajuípe consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo mas apenas uma delas continua crescendo.
Quem chega à cidade pela primeira vez dificilmente esquece o Lago Humberto Badaró. Poucos municípios do interior baiano possuem um cartão-postal tão bonito logo na entrada. A paisagem transmite tranquilidade, identidade e orgulho.

Mas cidades não vivem de paisagens.
Vivem de empregos.
Vivem de investimentos.
Vivem de oportunidades.
E é justamente quando olhamos para os indicadores oficiais que percebemos um contraste que merece atenção.
Enquanto o lago continua sendo um símbolo da cidade, os números mostram que Itajuípe perdeu população, cresce abaixo da média regional e ainda depende excessivamente da máquina pública para movimentar sua economia.
Essa não é uma opinião.
São dados.
Segundo o último Censo do IBGE, Itajuípe possui hoje 18.781 habitantes. Em relação ao levantamento anterior, o município perdeu mais de 10% da população.
Uma cidade não perde moradores por acaso.
Quando jovens deixam sua terra natal, normalmente procuram aquilo que não conseguem encontrar onde nasceram: emprego, renda e perspectivas de crescimento.
Esse talvez seja hoje o maior desafio de Itajuípe.
O potencial sempre existiu. O desenvolvimento, nem tanto.
Poucos municípios do sul da Bahia ocupam uma posição geográfica tão estratégica.
Quem segue para Coaraci, Almadina, Itapitanga, distritos de Ilhéus como Inema e Pimenteira, ou diversas comunidades da região, inevitavelmente passa por Itajuípe.
São milhares de pessoas circulando diariamente.
Esse fluxo deveria movimentar comércio, serviços, turismo e novos investimentos.
Mas ainda está muito distante disso.
O município registra um PIB de aproximadamente R$ 382 milhões, com renda per capita inferior às médias da Bahia e da própria região Ilhéus-Itabuna.
Enquanto outros municípios buscam diversificar suas economias, Itajuípe ainda depende fortemente da administração pública como principal empregadora.
Mais de mil empregos formais estão concentrados no setor público.
Isso revela uma realidade preocupante.
Quando uma cidade depende quase exclusivamente do poder público para gerar renda, ela se torna economicamente vulnerável.
O problema não é apenas conseguir investimentos.
É conseguir transformar investimento em desenvolvimento. Seria injusto afirmar que Itajuípe não recebeu investimentos.
Recebeu.
Somente recentemente, o Governo da Bahia destinou mais de R$ 14 milhões, principalmente para a construção do novo Colégio Estadual de Tempo Integral.
Também houve investimentos em equipamentos esportivos, pavimentação e programas de saúde.
São obras importantes.
Mas surge uma pergunta inevitável.
Esses investimentos estão sendo capazes de transformar a economia local?
Porque desenvolvimento não se mede apenas por inaugurações.
Mede-se pela capacidade de manter os jovens na cidade.
De gerar empregos.
De fortalecer o comércio.
De atrair empresas.
De aumentar a arrecadação própria.
A vocação econômica precisa ser reinventada.
Durante décadas, Itajuípe prosperou impulsionada pelo cacau.
Como praticamente toda a região, sofreu os efeitos devastadores da vassoura-de-bruxa.
Mas a história mostra que cidades que conseguem se reinventar saem mais fortes das crises.
O cacau continua sendo uma riqueza.
Mas não pode continuar sendo praticamente a única identidade econômica do município.
O turismo pode crescer.
A indústria pode ser fortalecida.
O comércio regional pode se expandir.
A logística pode ser melhor aproveitada.
A futura Região Metropolitana do Sul da Bahia pode representar uma oportunidade histórica.
Mas nenhuma dessas transformações acontece espontaneamente.
É preciso planejamento.
É preciso liderança.
É preciso visão de futuro.
O lago continua bonito. A pergunta é: e a cidade?
O Índice Firjan classifica Itajuípe como município de desenvolvimento moderado.
Saúde e educação apresentam resultados relativamente positivos.
Mas emprego e renda continuam sendo o principal gargalo.
A infraestrutura também revela desafios.
Embora a coleta de lixo alcance mais de 90% dos domicílios e o abastecimento de água atenda boa parte da população, o saneamento ainda está longe do ideal.
Esses números ajudam a explicar por que muitos moradores enxergam oportunidades fora de Itajuípe.
Está na hora de voltar a pensar grande.
Este editorial não pretende desmerecer administrações passadas nem ignorar avanços conquistados.
Reconhecer investimentos é um dever.
Mas cobrar resultados também é.
Itajuípe possui localização privilegiada, tradição agrícola, patrimônio histórico, potencial turístico e importância regional.
Faltam menos recursos do que muitos imaginam.
Talvez falte um projeto de cidade.
Um planejamento capaz de responder uma pergunta simples:
Como queremos enxergar Itajuípe daqui a vinte anos?
Porque municípios não crescem apenas administrando o presente.
Crescem quando alguém tem coragem de planejar o futuro.
E talvez essa seja a discussão mais importante que Itajuípe precisa iniciar antes das próximas eleições.
Menos promessas.
Mais projeto.
Menos improviso.
Mais planejamento.
Porque cidades não são lembradas apenas pelas paisagens que possuem.
São lembradas pelas oportunidades que oferecem.
O Lago Humberto Badaró continuará sendo motivo de orgulho.
Agora falta fazer com que o restante da cidade acompanhe a grandeza do seu principal cartão-postal.
Itajuípe merece mais do que sobreviver. Merece voltar a crescer.

OLHAR PÚBLICO
“Onde a informação encontra a reflexão.”
Thiago Viana Borges é Gestor Público (Aposentado) • Professor de Letras Vernáculas e Inglês • Editor • Redator e Consultor Político.
