
Quatro anos depois das enchentes históricas de 2021, que deixaram quase 80 cidades baianas debaixo d’água e milhares de famílias desabrigadas, a maioria das prefeituras dos territórios do Litoral Sul, Baixo Sul, Extremo Sul, Costa do Descobrimento e Médio Rio de Contas continua sem políticas consistentes de adaptação climática. O alerta vem do Índice de Transparência e Governança Pública (ITGP) 2025, produzido com metodologia da Transparência Internacional – Brasil e executado pelo Instituto Nossa Ilhéus com apoio da Universidade Estadual de Santa Cruz e da Agência de Desenvolvimento Regional Sul da Bahia.
A constatação é dura: os municípios não têm planos, não divulgam dados e não destinam recursos específicos para enfrentar os impactos climáticos. Na prática, isso significa que a população continua vulnerável a enchentes, ondas de calor, secas, avanço do mar e perda de biodiversidade, problemas acelerados pelo aumento global de temperatura.
Adaptação climática ainda é invisível nas gestões municipais
O módulo de Adaptação Climática foi avaliado pela primeira vez neste ano. Cada prefeitura recebeu nota de 0 a 100. O resultado? Um deserto.
Nenhum município alcançou nível “bom” ou “ótimo”. Nem mesmo Ilhéus, a melhor colocada, chegou perto do que seria considerado satisfatório. O levantamento aponta ausência de planos formais, ações preventivas, protocolos de risco e transparência mínima para que a sociedade possa acompanhar o que é feito.
E o problema não é só ambiental. É social, econômico e humano. Sem adaptação climática, cresce a vulnerabilidade em áreas como saúde, abastecimento, produção agrícola, moradia e saneamento.
A presidente do Instituto Nossa Ilhéus, Maria do Socorro Mendonça, resume o impacto:
“Sem transparência e governança, as políticas climáticas ficam invisíveis e as populações mais pobres, negras e periféricas continuam sendo as mais atingidas. Isso é racismo ambiental em sua forma estrutural.”
Nicole Verillo, do Centro de Apoio e Incidência Anticorrupção da Transparência Internacional – Brasil, reforça que a falta de publicidade das ações municipais impede que a população saiba como as cidades estão se preparando para eventos extremos:
“A pauta ainda é invisível, quando deveria ser prioridade.”
Módulo de Saúde expõe outro gargalo
Outra novidade do ITGP 2025 foi o módulo de Saúde. A média geral ficou em apenas 13,7 pontos. Municípios como Ipiaú, Ilhéus e Camacã até publicaram informações relevantes, mas a maioria não oferece dados atualizados, históricos, nem garante acesso a documentos essenciais para acompanhamento social.
Em outras palavras: a população não consegue monitorar as políticas públicas na área que mais afeta sua sobrevivência.
Para que serve o ranking
O ranking segue a metodologia do ITGP, que avalia a existência e implementação de leis de transparência, plataformas acessíveis para controle social, abertura de dados de finanças, licitações, contratos, obras e orçamento, além de mecanismos de participação cidadã e denúncias.
No recorte municipal, a Transparência Internacional – Brasil apoia 12 organizações civis que analisaram 329 cidades em 11 estados. Os resultados foram divulgados em 7 de outubro.
Sobre o Instituto Nossa Ilhéus
Fundado em 9 de março de 2012, o Instituto Nossa Ilhéus atua com advocacy e monitoramento social em prol do desenvolvimento sustentável do sul da Bahia. Sua atuação se conecta a três eixos: Educação para Cidadania, Monitoramento Social e Impacto em Políticas Públicas.